Liberdade Poética

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Duquinha – Estou muito impressionado. É uma coisa esquisita: todas as vezes que fico impressionado…
fico também com as mãos frias…
Lola – Mas não se impressione! Esteja à sua vontade! Parece que não lhe devo meter
medo!
Duquinha – Pelo contrário!
Lola (Arremedando-o.) – Pelo contrário! (Outro som.) São minhas essas flores?
Duquinha – Sim… eu não me atrevia… (Dá-lhe as flores.)
Lola – Ora essa! Por quê? (Depois de aspirá-las.) Que lindas são!
Duquinha – Trago-lhe também umas flores… poéticas.
Lola – Umas quê?…
Duquinha – Uns versos.
Lola – Versos? Bravo! Não sabia que era poeta!
Duquinha – Sou poeta, sim, senhora… mas poeta moderno, decadente…
Lola – Decadente? Nessa idade?
Duquinha – Nós somos todos muito novos.
Lola – Nós quem?
Duquinha – Nós, os decadentes. E só podemos ser compreendidos por gente da nossa idade. As
pessoas de mais de trinta anos não nos entendem.
Lola – Se o senhor se demorasse mais algum tempo, arriscava-se a não ser compreendido
por mim.
Duquinha – Se dá licença, leio os meus versos.
(Tirando um papel da algibeira.) Quer
ouvi-los?
Lola – Com todo o prazer.
Duquinha – (Lendo.)
Ó flor das flores, linda espanhola,
Como eu te adoro, como eu te adoro!
Pelos teus olhos, ó Lola! ó Lola!
De dia canto, de noite choro,
Linda espanhola, linda espanhola!
Lola – Dir-se-ia que o trago de canto chorado!
Duquinha – Ouça a segunda estrofe:
És uma santa, santa das santas!
Como eu te adoro, como eu te adoro!
Meu peito enlevas, minh’alma encantas!
Ouve o meu triste canto sonoro,
Santa das santas, santa das santas!
Lola – Santa? Eu!… Isto é que é liberdade poética!
Trecho de A CAPITAL FEDERAL, de Artur de Azevedo, para livro didático da editora Saraiva.

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